Tempo e Espaço

Eu sou o teu tempo,

tu és o meu espaço

Se tu me deixas,

arrancas de mim um enorme pedaço

 

O teu ser me preenche

O meu em ti te imortaliza

Sem ti, eu sou vazio

Sem mim, a tua história não se concretiza

 

Se tu me deixas,

nada eu sou

Se eu te rejeito,

tu serás como quem nunca por aqui passou

 

Se separados,

o que há de belo em nós se finaliza

Juntos, o vazio deixa de existir

e o nosso ser se eterniza

 

 

Tripartite

Eu pensava que,

aqui,

paletó fosse sobreveste de barão

Mas descobri que é roupa de lá

 

Drão!

 

É a bela música que fala do imenso monólito,

que, na verdade, não é o amor

É a grande pedra que há,

da velha e conhecida poesia,

no meio de nosso caminho

Constituída pelo bloco daqueles que estão sob esse cobiçado sobretudo, sobretudo

 

Eu pensava que terno,

aqui,

fosse também vestuário  de Silva

Mas descobri que é roupa somente de Sá

 

Fado

 

É o ícone cultural português que,

lento e triste,

controla, até hoje, os episódios daqui

E faz com que os acontecimentos independam da vontade da maioria

 

Eu pensava que,

aqui,

gravata fosse acessório de branco

Mas descobri que ela é a própria cor

 

Reia

 

É a deusa da fertilidade que,

Aqui, erroneamente,

é passada envolta do pescoço do povo pobre

E, diariamente, com um nó, enforca-nos, enforca-nos

 

 

 

 

 

 

 

 

A Razão

Apertei ao delírio o meu dedo,

para ver se eu pararia essa razão desenfreada

E o trilho era tênue demais…

 

Só que o demais

era uma intensidade de mais ao meu gosto

E o que era delgado, ao invés de me descarrilar,

disciplinou-me ainda mais

 

E o bom senso…

Que senso? Que nada!

… inconsequente, censurou-me em meio à rapaziada

– que gozara de minha mancada

E eu, vexado, me envergonhei

por terem-me voltado à razão

 

Já dizia aquele de Atenas,

“que ela vem feito uma brisa serena”

E adestra-me e me envenena

 

E o delírio transformou-se em gatilho,

cujo dedo ainda é o mesmo que aperta

e, que, com sensatez, diz que é em honra àquele juízo

Mas a minha sóbria embriaguez diz ser ele um desatino

 

Grilhões

Agrilhoado em mim,

sou impedido em fazer

tudo aquilo que me impõem

 

Chora, então, esse sujeito

que me constitui

 

Mas de onde vem

Esta pessoa quem vos fala?

Por que a chamo de Eu?

Teleológico

Estar aqui, para mim,

é torturante

Uma conspurcação grandíloqua

afeta a minha percepção

 

Logo, o meu corpo

é subjugado

por um atípico e sacal sentimento

 

Penso em sair, correndo, daqui

Sem embargo, sou impedido,

por mim mesmo,

em fazer isso

 

É que me sujeito ao momento,

achando eu que é possível a existência dessa suposta linearidade teleológica de causa e efeito

Cujo fim,

a gente procura sempre fantasiar

que será algo bom

 

 

 

Copiosa coisa pensante

Eu sou puta,

e não prostituta

Mas cobro

E cobro barato:

somente o necessário

para ter o meu feijão ao prato

 

Eu não tenho fama,

tampouco grana

Pois não corro atrás de bola,

preferi ir à escola

Envergonho-me de, em todo tempo, ser agraciado

não quero, pois, cair no vício de pedir esmola

 

Semelhante a um casal, em sua intimidade,

sou uma tremenda puta em meu trabalho

O contrário tão somente,

é que faço tudo,

e nada valho

 

Puta…,

putativo cidadão eu sou,

suposto vivente entre os nobres senhores

Valho somente enquanto ensimesmado

fora isso,

sou privado de quaisquer valores

 

Rotularam-me de meretriz,

e isto é um grande e quase irreversível mal

pois, sendo assim,

eu certamente nunca ascenderei

Sobreviverei eu sempre na horizontal

 

Quão patológico é este tal de Capitalismo,

cujo sufixo mui me contaminara,

feito certa espécie danosa de vírus

ou qualquer outra mortal doença rara

Cão vadio

Quisera eu,

ao menos ter o privilégio

em “comer do pão que o Diabo amassou”

pois, quem dele provou,

eu tenho plena certeza

de que a sua fome matou

 

Quisera eu,

ao menos ter “bosta no cu para cagar”

pois, quem a tem,

é muito certo que há pouco

tivera do que se alimentar

 

Quisera eu,

ao menos ter sido um dia

chamado de “Tássia”

“Tá se achando” pois, hoje em dia,

é considerado profissão,

praticada pela maioria dessa grande máfia

 

Quisera eu,

ter o privilégio em alimentar-me bem,

como o de comer um cobiçado ovo frito

E, depois dessa deliciosa refeição,

deitar-me para uma repousada digestão

e arrotar, não caviar,

mas o próprio bendito – ovo frito

 

Mas eu fiquei só na quimera

deste maldito “quisera”

de que um dia eu pudesse viver uma primavera,

cujas flores seriam a felicidade brotando de mim

 

Só que a dor perene em meu peito

que,de tão latente,

não me deixa dormir direito

e sempre me obriga

a chegar ao real conceito

de que o que eu vivo mesmo

não é passado nem futuro,

e sim um presente mais que perfeito