Eu, eu?

Eu,

ser inseguro,

demasiado impuro,

em que o estar em cima do muro

designa minha segurança

 

Eu,

ser da incerteza,

de pouca firmeza,

cujas singelas cartas, jogadas à mesa,

fazem-me ter uma leiga noção do que é certo

 

Eu,

ser ignorante,

de espantoso semblante,

engano-me a todo instante,

julgando-me de tudo eu saber

 

Eu,

ser subjetivo,

que sequer sei qual o conceito de substantivo,

fico a todo tempo dando uma de construtivo,

adjetivando-me eu bondosamente a mim mesmo

 

Eu,

ser desprovido de verdade,

com persuasiva argumentatividade,

faço eu de minha falaciosidade

o sentido do existir

 

Eu,

ser impensante,

pois penso que penso a todo instante,

e isso não chega ao mínimo montante

do que seja o pensar

 

Eu,

ser imperfeito,

fincado em um singular sujeito,

abro a minha boca e bato em meu peito,

ratificando que o essencial do ser é ser um ser variado

 

Eu…

Primeiro eu, sempre eu

Tudo eu, certo eu

Eu?

Não fui eu

Puta poeta

Pensar em poder ser poeta, é

proferir um poema perfeito,

permitindo a permanência da plateia de pé

pois,

poesia pura,

pouca possibilidade

para a pessoa produzir e

persuadir o público

poivelmente há

Puxa!

Supressão

Prefiro as críticas, as injúrias, as difamações,

elas costumam ser demasiado sinceras,

se não são,

quem as proferiu o é,

a ser rodeado de alguns medíocres e falaciosos elogios,

cuja hipocrisia, indiscretamente,

encontra-se estampada no semblante

desse sujeito falante

 

Prefiro a solidão,

isto, sim, é o que na maioria das vezes me nutre,

a fazer parte da carnificina que a todo dia é gerada

do ventre dessa humanidade abutre

 

Prefiro a angústia crônica

à admiração irônica

 

Não prefiro, mas o que resta a mim é a supressão

Pseudofruto

Jabuticabeira,

tu és o mais belo dos arbustos

mas, para evitar conflito com os outros frutos,

de jabuticaba eu irei te chamar

 

Jabuticaba,

a minha divina astuta

diz que tu és a mais bela fruta

existente em meu pomar

 

Jabuticaba,

o que minha intuição percebe,

é que o teu olhar concebe

a origem de meu admirar

 

Jabuticaba,

dizem que o poeta finge

Sendo assim, eu conservo a esfinge,

e digo que não quero de ti provar

 

Jabuticaba,

toda vez que tu me deixas,

as folhas de tuas multicoloridas madeixas

balançam e balançam-me ao teu caminhar

 

Jabuticaba,

de jambo são os teus tenros lábios

e, em teus conceitos sábios,

sabes que é de ti que eu estou a falar

 

Jabuticabas,

para não gerar carola mais,

o recinto em que vós morais

é o lar que pretendo e que hei de habitar

 

E, para que não duvideis de quais jabuticabas eu falo,

quero deixar bem claro

que vós estais agora em claro,

olhando para este simplório modo de eu me manifestar

 

 

A onipresente

Ela é uma tremenda prostituta,

uma meretriz, mercenária

Aceita qualquer trocado daquele que queira usá-la

Ela não dorme,

vara a madrugada sendo varada,

às vezes, em troca de nada

 

Ela é uma baita de uma vagabunda,

uma vadia, andarilha

E, neste vagar, ela dispensa vestes

Ela, sem escrúpulos, despe-se aos olhos de qualquer pessoa,

não tem vergonha sequer das ingênuas criancinhas

 

Ela é uma cruel genocida

Ela mata, seja no atacado ou no varejo, ela mata

Ela é má,

a causa de todos os tipos de contenda humana

Ela é o estopim das guerras entre os homens,

a mais voraz das bombas,

e que nem precisara por aqueles ser inventada

 

Ah! Se eu pudesse…

Acabaria com ela, agora, agora mesmo

Mas, infelizmente,

eu não posso,

pois seria também a minha autodestruição,

uma vez que ela já se entranhara em minh’alma

Ela me manipula o tempo todo,

ela é dona até de meus sonhos

 

Ela está aqui, em mim, ela está aí também

Ela é onipresente,

ela é dona do Todo

Mas eu ainda hei de dar a volta por cima,

e arranjarei um jeito em não mais sermos teus escravos,

em não mais precisarmos de ti,

maldita “Palavra”!

Refluxo

Eu preciso remoldar a minha alma,

a fim de dar uma nova forma

e alcançar os benefícios

por mim apetecidos

 

Terei de voltar à perdida infância,

porquanto acredito que seja ela o lugar

onde depositaram as qualidades

que me deixam desconcertado

 

Não sei como,

mas sinto a necessidade em esvaziar-me de mim mesmo

Assim,

quiçá poderei expurgar as sujidades

que insistem em me constituir

 

Encontrando-me já em pleno frívolo vazio de minha puerícia,

farei com que esta seja

novamente preenchida… E com aquele escrete que será por mim selecionado

 

É que eu nunca quis “ser aquela velha opinião formada sobre tudo”,

mas vejo que  “essa metamorfose ambulante”

é um arranjo que

também não melhor me compõe

 

Paradoxo Poético

Ó Aristócles!

Será que tu estavas certo,

ao querer expulsar o poeta

de tua utópica cidade?

 

Porque a poesia fora institucionalizada,

às vezes, eu me questiono

se ainda vale a pena germiná-la

Para tanto, estabeleceu-se

um método e,

aquele que resolver não segui-lo,

corre um sério risco

em ficar de fora

 

Sinto-me tomado pelo apocalipse,

cujo paradigma,

estabelecido à produção poética,

sinaliza o alegórico sinal da divina Besta

 

É torturante, para mim,

saber que eu,

ao querer materializar os meus alentos,

estarei execrado a corrompê-los

 

Com isso, infeliz(mente),

a cada noite,

obscurecerei e internalizarei,

mais ainda,

os meus monstros, os meus demônios