Pathos

Ao vento,

vão-se embora todas as palavras

proferidas e direcionadas a ti

 

O que fica

é o singelo e verdadeiro sentimento

que eu tenho por ti,

ora existente lá no íntimo de minh’alma

 

E esse entusiasmo tu só

poderás perceber

por meio de teu deslumbrante olhar

À míngua

Alcancei, em um momento equidistante ao meu ser, o inacessícel

Neste átimo inusitado e singular, insisti em penetrá-lo

 

E, ao transpor o que outrora caracterizava-se enquanto intangível, ínvio,

percebi, em meio à obscuridade que me deixara deslumbrado,

que a civilização ocidental segue à míngua

por alcançar os limites de sua sagacidade,

de sua faculdade inteligível

 

Vi que há, porém,

além dessas meras extremidades,

aquilo que necessita, outrossim, de ser reinventado

Não pelo Ocidente,

mas antes por aquela hermética civilização,

cujo embaraço causado ao espírito não me permitira por ora descrever,

tampouco quando será

Quando será?

“Des-compleição”

Eu, que desde menino,

tracei em meu destino

que a vivência nesse vicioso círculo latino

seria de uma temporalidade efêmera

 

Por isso, nunca fui de criar raiz

e, como um eterno aprendiz,

percebi que aquele imenso platô que encontrava-se sob o meu nariz

era demasiado ínfimo à minha desmedida exploração

 

Assim, nesse desapego dissoluto,

refleti por mais de um minuto

de como eu me tornaria diminuto

ao cometer eu o descompasso em ficar

 

Foi aí que dei meu primeiro passo,

escancarando em um tremendo arregaço,

balancei meu ajoujo e no mundo eu dei um laço,

mostrando ao mesmo que eu tenho as rédeas

 

Com isso, minha imaginação insiste

em dizer que os céus estão aquém de meu limite,

cujo conceito é divergente e encontra-se além de tudo que existe,

como tem provado meu singelo processo de abstração

Tempo e Espaço

Eu sou o teu tempo,

tu és o meu espaço

Se tu me deixas,

arrancas de mim um enorme pedaço

 

O teu ser me preenche

O meu em ti te imortaliza

Sem ti, eu sou vazio

Sem mim, a tua história não se concretiza

 

Se tu me deixas,

nada eu sou

Se eu te rejeito,

tu serás como quem nunca por aqui passou

 

Se separados,

o que há de belo em nós se finaliza

Juntos, o vazio deixa de existir

e o nosso ser se eterniza

 

 

Tripartite

Eu pensava que,

aqui,

paletó fosse sobreveste de barão

Mas descobri que é roupa de lá

 

Drão!

 

É a bela música que fala do imenso monólito,

que, na verdade, não é o amor

É a grande pedra que há,

da velha e conhecida poesia,

no meio de nosso caminho

Constituída pelo bloco daqueles que estão sob esse cobiçado sobretudo, sobretudo

 

Eu pensava que terno,

aqui,

fosse também vestuário  de Silva

Mas descobri que é roupa somente de Sá

 

Fado

 

É o ícone cultural português que,

lento e triste,

controla, até hoje, os episódios daqui

E faz com que os acontecimentos independam da vontade da maioria

 

Eu pensava que,

aqui,

gravata fosse acessório de branco

Mas descobri que ela é a própria cor

 

Reia

 

É a deusa da fertilidade que,

aqui, erroneamente,

é passada envolta do pescoço do povo pobre

E, diariamente, com um nó, enforca-nos, enforca-nos

 

 

 

 

 

 

 

 

A Razão

Apertei ao delírio o meu dedo,

para ver se eu pararia essa razão desenfreada

E o trilho era tênue demais…

 

Só que o demais

era uma intensidade de mais ao meu gosto

E o que era delgado, ao invés de me descarrilar,

disciplinou-me ainda mais

 

E o bom senso…

Que senso? Que nada!

… inconsequente, censurou-me em meio à rapaziada

– que gozara de minha mancada

E eu, vexado, me envergonhei

por terem-me voltado à razão

 

Já dizia aquele de Atenas,

“que ela vem feito uma brisa serena”

E adestra-me e me envenena

 

E o delírio transformou-se em gatilho,

cujo dedo ainda é o mesmo que aperta

e, que, com sensatez, diz que é em honra àquele juízo

Mas a minha sóbria embriaguez diz ser ele um desatino

 

Grilhões

Agrilhoado em mim,

sou impedido em fazer

tudo aquilo que me impõem

 

Chora, então, esse sujeito

que me constitui

 

Mas de onde vem

esta pessoa quem vos fala?

Por que a chamo de Eu?